sexta-feira, 22 de abril de 2016

Introdução


UFRRJ
Nova Iguaçu, abril de 2016.
Professor: Dr. Raimundo Nonato Gurgel Soares
 Graduando: Valney de Jesus - Letras / Espanhol / Literaturas


TCD apresentado ao professor Dr. Raimundo Nonato Gurgel Soares, como requisito para a conclusão da disciplina: NEPE IV



Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mfrnOfeznYQ. Acesso em: 25/04/2016.


          Renato Russo (1960-1996), grande compositor e poeta do final do século XX, com seu espírito polêmico e revolucionário alcançou o sucesso na banda Legião Urbana, através das fortes mensagens de cunho político e social, expressas nos versos de suas canções. Num contexto social altamente diversificado, Renato Russo pretende buscar possíveis respostas aos efeitos causados pelos conflitos entre o indivíduo e a sociedade em suas relações. Defensor insaciável pelos direitos igualitários das minorias, ele busca incessantemente pela reação e libertação da população oprimida, num constante embate com as forças opressoras, que impõem padrões pré-determinados baseados na ideologia do sujeito eurocêntrico (homem heterossexual, branco de classe média).




O poder da voz



Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8z-fxcdHmDE. Acesso em: 25/04/2016.


Com a globalização e a facilidade no acesso às informações, as minorias passaram a ter um certo reconhecimento, suas vozes que outrora eram impedidas ou subalternizadas, passaram a ecoar nos tímpanos de outras classes sociais, digamos mais privilegiadas, e cada vez mais tem crescido esse tipo de percepção. Renato Russo levanta este tipo de questionamento na canção "Há Tempos", de maneira a causar certa provocação, afirmando que:

Disseste que se tua voz tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
                                      Mas a vizinhança inteira*


          O sujeito contemporâneo, com o passar dos tempos e as transformações por ele provocadas, aliadas aos recursos tecnológicos, possui a capacidade de acordar não só a sua vizinhança e sim um planeta inteiro, despertando em todos o senso crítico a respeito das suas demandas sociais em sua realidade. Quando podemos envolver a criatividade então, maiores são as possibilidades de se obter a resposta aguardada frente aos problemas sociais enfrentados em questão.

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*LEGIÃO URBANA. “Há Tempos”. Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá In: As Quatro Estações. Rio de Janeiro: EMI. 1989. 1 CD. Faixa 1.


 

As contribuições do feminismo




Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9qr0378vrXA. Acesso em: 25/04/2016.


              Na canção “Eduardo e Mônica”, Renato Russo com toda a sua sensibilidade foi capaz de reverter a tradicional visão machista construída por uma sociedade opressora, onde Mônica surge numa condição diferente. Podemos perceber que ela sempre se encontra numa posição superior a Eduardo, seja em termos culturais, existenciais, em sua posição social ou em seu grau de escolaridade.

Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar.
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard.
Se encontraram então no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de Camelo.
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo.
Eduardo e Mônica eram nada parecidos
- Ela era de leão e ele tinha dezesseis.
Ela fazia medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês**

            Ultimamente houve uma crescente presença feminina matriculando-se nos cursos superiores, inclusive em muitos casos superam a quantidade de graduandos do sexo masculino, principalmente em cursos relacionados a área das ciências humanas. Tal percepção também pode ser observada no mercado de trabalho, o que demonstra que a capacidade de todas as mulheres está para além das paredes de sua casa, temos como representante do posto mais elevado do poder executivo um presidente do sexo feminino, não cabe à sociedade limitar a que nível de escolaridade, tipo de cargo, ou emprego elas possam alcançar. Basta, portanto, que elas apresentem as mesmas capacidades ou habilidades que os homens.


**LEGIÃO URBANA. “Eduardo e Mônica”. Renato Russo. In: Dois. Rio de Janeiro: EMI. 1986. 1 CD. Faixa 4.



Diversidade Racial




 
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PLE0dXYPANg. Acesso em: 22/04/2016.


        Renato Russo expõe em seus versos, na canção "Faroeste Caboclo", a condição de João de Santo Cristo, um verdadeiro anti-herói brasileiro, que adquire suas características num cenário no qual o Brasil se apresenta como Estado de desigualdades evidentes, e contribui para moldar as características e a identidade do personagem a partir de sua própria experiência, e sofrendo assim duras consequências em virtude de suas escolhas e dos reflexos da atual sociedade, pois João de Santo Cristo,

Sentia mesmo que era diferente
E sentia que aquilo ali não era o seu lugar
[...]
Não entendia com a vida funcionava
Discriminação por causa de sua classe ou sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador***

        Realmente existem dificuldades para qualquer indivíduo encontrar respostas para todos os problemas em stricto sensu, portanto, sua condição financeira ou a cor da sua pele não devem ser fatores que o tornem uma pessoa diferente ou simplesmente inferior. Por outro lado, em lato sensu, é possível perceber como a influência do sujeito ocidental contribui para a construção do homem moderno, caracterizada pelo sujeito eurocêntrico (homem, branco, europeu, heterossexual) ainda reproduzida em nosso imaginário se manifestando nos dias atuais em nossa sociedade.
 

***LEGIÃO URBANA. “Faroeste Caboclo”. Renato Russo. In: Que País é Este. Rio de Janeiro: EMI. 1987. 1 CD. Faixa 7.

Diversidade de gêneros




 
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=o3Cugof-YQI. Acesso em: 25/04/2016.


          Ao contrário de que muitos acreditem, Renato Russo não se definia como homossexual, e sim bissexual, numa entrevista, ele revela a sua opinião a respeito dos heterossexuais, expondo que: “Os heteros não são normais, são comuns... o modelo hetero oprime as pessoas. Está na hora de se respeitar os direitos dos que tem sensibilidades diferentes.” (RUSSO, 1996, p. 183). Na canção “Meninos e meninas”, o eu-lírico revela a sua condição de bissexual ao descrever seu afeto por homens e mulheres:

Quero me encontrar mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão
E dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui.

Acho que gosto de São Paulo
E gosto de São João
Gosto de São Francisco
E São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas [...]****

      Todas as pessoas merecem e devem ser respeitadas, independentemente de suas diferenças e diversidades. O simples fato do indivíduo definir sua posição sexual, por critérios ideológicos e não biológicos, não o caracteriza como anormal, e sim diferente.





****LEGIÃO URBANA. “Meninos e Meninas”. Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá. In: As Quatro Estações. Rio de Janeiro: EMI. 1989. 1 CD. Faixa 9.

Referências Bibliográficas

RUSSO, Renato. Conversações com Renato Russo. – Campo Grande: Letra Livre Editora, 1996.